terça-feira, 22 junho 2021 16:37

No "Psicologicamente Falando" com a Coordenadora Nacional de Saúde Mental da CVP

A Revista Universitária de Psicologia tem uma nova rúbrica que pretende oferecer um olhar psicológico sobre o mundo atual e os desafios da Psicologia, com a colaboração da Coordenadora Nacional de Saúde Mental e Apoio Psicossocial da Cruz Vermelha Portuguesa, Inês Ribeiro.

 

 

 

Dia Internacional de Crianças Inocentes Vítimas de Agressão: parar e refletir

O Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão é assinalado anualmente a 4 de junho, mas longe de ser um dia de celebração, este é um dia de reflexão e consciencialização sobre a necessidade de proteção de crianças vítimas de agressão física e emocional decorrentes de contextos de guerra, violência sexual ou de privação de bens essenciais.

Estima-se que cerca de 357 milhões de crianças vivem em zonas de conflito armado (Save the Children, 2018) estando em risco a sua saúde física, mental e do bem-estar psicossocial pela exposição direta à violência, pobreza e dificuldades no acesso a bens essenciais e serviços.

Em zonas de conflito armado a população é exposta a diferentes desafios e exigências e as crianças, assim como outros grupos vulneráveis, são as primeiras a sofrer. Considerando a importância de planear intervenções multiníveis, a Federação Internacional da Cruz Vermelha apresentou em 2019 uma estrutura piramidal que visa apoiar técnicos e profissionais na implementação de ações promotoras de saúde mental dirigidas a indivíduos, famílias e comunidades. Esta estrutura contempla ações desde o apoio psicossocial básico (e.g. Primeiros Socorros Psicológicos), a ações que visam fortalecer o apoio e resiliência da comunidade (e.g. reunificação familiar de crianças separadas, grupos de apoio e apoio de pares), e ações que visam o apoio especializado disponibilizado por exemplo por psicólogos.

A especificidade destes contextos leva a que não exista uma intervenção universal e única. A título de exemplo: uma criança vítima de violência sexual numa zona de conflito poderá beneficiar de uma intervenção especifica no trauma, enquanto uma criança que foi deslocada e separada da família poderá necessitar somente de ferramentas para lidar com as angústias diárias decorrentes da separação da família, mas ambas podem beneficiar de apoio no acesso à educação, habitação e nutrição. É por isso fundamental que um psicólogo a intervir neste contexto possua ferramentas como os Primeiros Socorros Psicológicos, intervenção na crise e/ou logo após a exposição a eventos potencialmente traumáticos, mas também competências de recuperação psicológica para situações em que já decorreram semanas/meses após a exposição. Não esquecendo a importância de competências mais específicas de intervenção mais tardia para o tratamento da Perturbação de Stress Pós-traumático (e.g. EMDR, Exposição Prolongada, Terapia Cognitiva). Importa ainda salientar a importância de uma abordagem colaborativa nestes contextos, garantindo assim uma intervenção sistémica e multinível como a prevista na pirâmide de apoio psicossocial e saúde mental mencionada.

Por último reforçar que os direitos das crianças não se extinguem na fronteira das zonas de guerra e garantir o seu bem-estar não é uma tarefa exclusiva dos pais, mas também da comunidade, dos profissionais de saúde e dos governantes, isto é, da sociedade como um todo.
 
 
 

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